Португальский Медицина
13.08.2026 Читать источник
В Кантаньеди требуют прозрачности перед возможной передачей государственной больницы под управление благотворительного фонда

На фоне праздничного открытия выставки EXPOFACIC местный политик призвал власти защитить Hospital Arcebispo João Crisóstomo от передачи частному управлению, ссылаясь на прецеденты в других регионах. Автор подчеркивает необходимость публичного обоснования сделки и гарантий сохранения бесплатного доступа к медицинской помощи для жителей.
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Vivemos dias de festa. A EXPOFACIC voltou a abrir portas e, com ela, Cantanhede volta a afirmar-se. Não só na agricultura ou no comércio, mas sobretudo naquilo que melhor nos define, uma força associativa e comunitária que poucos concelhos do país conseguem igualar. São os dias em que nos reconhecemos inteiros, feitos de voluntariado e de gente que dá o seu tempo para que a festa aconteça. Celebro-a com todos.
Mas uma comunidade que sabe festejar em conjunto tem também o dever de pensar em conjunto. E há assuntos que não deviam pertencer à trincheira da divergência, mas ao chão comum onde nos encontramos, seja qual for a cor com que votamos. A saúde é o primeiro deles. Entre nós, tem um nome próprio, Hospital Arcebispo João Crisóstomo.
Escrevo porque as notícias que nos vão chegando, embora discretas, são de séria preocupação. O Estado retomou a passagem de hospitais do Serviço Nacional de Saúde para a gestão das Misericórdias. Está assinada a entrega do Hospital de São João da Madeira, com um pagamento anual à respetiva Santa Casa na ordem dos catorze milhões. Segue-se, em negociação, o de Santo Tirso. E há precedente, o de Anadia, Fafe e Serpa, entregues há uma década. A União das Misericórdias não escondeu a vontade de alargar o modelo. O Estado continuará a suportar a maior fatia da despesa. Ficámos a saber como. Falta saber para quê.
Que fique claro o que não está em causa. Não está em causa a dignidade das Misericórdias, instituições com mais de quinhentos anos, o braço solidário onde o Estado, sozinho, não chega. O que está em causa é a falta de transparência do processo e uma conta que teima em não fechar. O Estado mantém-se a financiar a maior parte da operação e paga, ainda por cima, à Misericórdia pela prestação. E nada garante que esses serviços não venham a ser executados por uma unidade privada da praça, subcontratada mais adiante. Onde está a poupança? O estudo que devia prová-la, prometido há mais de um ano, nunca foi tornado público. Pedir confiança sem mostrar as contas é pedir muito, sobretudo quando o que está em jogo é a saúde de um povo.
Chego à pergunta que nos importa. Seguirá o Arcebispo João Crisóstomo o mesmo caminho?
Falo do hospital a que muitos chamam, com carinho, o mais pequeno do país, e que por isso mesmo é o mais próximo, com o seu internamento e convalescença, as suas ligações ao CHUC e ao IPO e os estágios da Faculdade de Medicina. Uma unidade que, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, recebeu investimento público avultado. É património afetivo de Cantanhede e de Mira, de Arazede e das freguesias que a ele acorrem. Sei que a génese do hospital se cruza com a Misericórdia local, pelo legado do Arcebispo, e digo-o sem receio. Mas uma coisa é a raiz histórica, outra é entregar hoje a terceiros uma unidade reconstruída com o dinheiro de todos, e ainda pagar por isso. Devolver o quê, e a quem?
Há também uma memória que não devemos calar. Já houve, neste concelho, quem tivesse de erguer a voz para manter o hospital em mãos públicas, com recomendações na Assembleia da República que atravessaram partidos. Estaremos a regressar, sem darmos por isso, a esses tempos, a ter de salvar outra vez o nosso hospital?
Deixo as perguntas em cima da mesa. Que pensam os nossos responsáveis políticos sobre estas entregas à União das Misericórdias? Que pensam sobre o futuro do Hospital de Cantanhede quem tem o dever de decidir e o direito de ser ouvido, dos autarcas aos profissionais de saúde, das coletividades aos utentes? E há uma resposta que não pode faltar. A Câmara de Cantanhede, de maioria social-democrata, já tomou no passado posição contra a entrega do hospital à União das Misericórdias. Ora a política nacional que agora reabre a porta é conduzida por um Governo do mesmo partido. Mantém-se a posição de ontem? Está o executivo disposto a defender o nosso hospital perante o seu próprio Governo, ou preferirá o silêncio?
Não peço alarme. Peço transparência, e peço-a antes de qualquer acordo assinado, porque depois de assinado o barro já secou. Que se publique o estudo. Que se explique a mais-valia. Que se garanta, por escrito, que o hospital continua público, no SNS, com acesso livre, e que nenhum euro do esforço de todos é entregue sem contrapartida a quem aqui vive.
O mesmo espírito que ergue a EXPOFACIC, o do trabalho partilhado pelo bem comum, é o que deve erguer-se na defesa do que é essencial. Festejamos bem porque nos sabemos unir. Saibamos unir-nos também nisto. Enquanto vereador, assumo o compromisso de trazer de novo este assunto às reuniões quinzenais do executivo. Não como bandeira de uns contra outros, mas como causa de todos.
Passada a festa, fica o dever. E, com ele, uma pergunta que não se cala. E o Hospital de Cantanhede?
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