Португальский Экология
06.07.2026 Читать источник
Эколог-трансгендер из Колумбии предлагает концепцию «трансекологии» для выживания в эпоху климатического кризиса

Колумбийский эколог и трансгендер Бритт Батисте-Баллера представила концепцию «трансекологии», утверждая, что принятие гендерного разнообразия и технологий необходимо для адаптации к изменениям климата. В своей книге она призывает пересмотреть отношение к природе, объединив экологические принципы с идеями квир-теории и индейских традиций.
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‘Não há nada mais queer do que a natureza’, afirma a ecóloga colombiana trans
Autora de 'Transecologia', cientista propõe que abraçar a diversidade, corpos e tecnologias é a chave para sobrevivermos à crise climática
A ecóloga colombiana Brigitte Baptiste-Ballera é hoje uma das vozes mais originais do pensamento ambiental contemporâneo. Mulher trans e atual reitora da Universidade EAN, na Colômbia, ela desafia a visão de uma natureza estática e conservadora, mostrando que a biodiversidade e a diversidade de gênero estão intimamente conectadas.
Esse olhar inovador norteia o seu livro, Transecologia, que está sendo lançado no Brasil pelo selo Crítica, da editora Planeta. Na obra, Baptiste utiliza as lentes da “ecologia queer” para nos incentivar a repensar nossa relação com o planeta diante das mudanças climáticas e a abraçar transformações radicais na sociedade. Na entrevista a seguir, a cientista detalha as bases teóricas de seu pensamento e explica por que “não há nada mais queer do que a natureza”.
Para começarmos pelo básico e ajudar quem ainda não está familiarizado com o tema, o que é exatamente o conceito de “transecologia”? A transecologia é uma invenção minha, que brinca um pouco com a minha forma de ver a realidade como mulher trans e também como ecóloga. O objetivo de unir esses conceitos é entender a amplitude e os potenciais efeitos das mudanças nas pessoas, nos corpos e nas identidades, mas também em escalas maiores, como nos ecossistemas. A ideia principal é convidar as pessoas a debaterem os impactos de transformações radicais e, principalmente, promover a mudança em sua melhor forma possível.
Você costuma dizer que “não há nada mais queer do que a natureza”. Você pode explicar melhor essa visão? Claro. Geralmente, pensamos que a natureza é algo fixo, com regras de comportamento muito rígidas, e que as relações entre os elementos de um ecossistema são permanentes ou bem delimitadas. Mas, na verdade, os ecossistemas permitem conexões entre todos os seres vivos e o ambiente que estão sempre em movimento, sempre mudando. Falar sobre a “estranheza” (queerness) nos ecossistemas significa entender que não existem linhas retas na natureza; as conexões entre os componentes de qualquer sistema são efêmeras e podem ser sempre retorcidas e fluidas.
De que maneira a sua própria transição de gênero enriqueceu o seu olhar científico sobre os ecossistemas e ajudou a moldar esse conceito? Na minha experiência profissional, sempre me deparei com a noção do impacto ambiental da cultura e da destruição da natureza, onde a mudança costuma ser vista apenas como algo negativo. No entanto, a mudança também nos trouxe coisas muito positivas aprendemos muito sobre como a natureza funciona e criamos respostas para melhorar o nosso bem-estar. O papel da ciência é justamente separar os efeitos positivos dos negativos dessa transformação. Se evitarmos falar sobre transições, corremos o risco de ficar paralisados. Foi exatamente isso que aconteceu comigo quando estava presa na minha identidade masculina; eu sentia a necessidade de uma mudança profunda, mas não sabia como expressá-la. Quando busquei entender como a minha experiência feminina – oculta por 35 anos – poderia me tornar uma pessoa melhor, consegui traduzir isso em empatia para com as outras pessoas e com o mundo. Esse é o exemplo que uso para mostrar que podemos criar mudanças positivas para os indivíduos, para as comunidades e para o planeta, reconhecendo que existem diferentes critérios para julgar o que é bom.
Pensando politicamente, como você propõe mudar as diretrizes tradicionais de conservação ambiental? Faço isso, sobretudo, usando analogias da própria natureza, explicando às pessoas como as plantas e os animais se comportam, criam e evoluem. Acredito que a evolução ecológica é uma ferramenta importante para o debate social sobre o nosso lugar como espécie, afinal, somos animais evoluindo no meio da teia da vida. Como ecóloga, acho muito atraente a ideia de que existe uma “biopolítica” na forma como compartilhamos o mundo com as outras espécies. É assim que tento inspirar pessoas que não são familiares com as ciências sociais ou com a economia criando novas linguagens e mostrando que, se os peixes se comportam de uma determinada maneira, podemos aprender com isso. É uma espécie de herança da sociobiologia, mas com um olhar de maior complexidade e menos determinismo.
Como a transecologia dialoga com as percepções indígenas de natureza? Existe alguma convergência? Existem muitas. Os grupos indígenas construíram suas próprias formas de entender a natureza e possuem percepções muito diferentes sobre o seu papel no meio das outras espécies. Toda cultura constrói sua própria interpretação do ambiente, o que significa que existem milhares de “ecologias” no mundo, com diferentes conjuntos de valores sobre como viver de forma adequada. Nas culturas indígenas, há uma visão de cautela que diz “não mexa com a biodiversidade, não destrua a floresta, porque estamos totalmente emaranhados nela”. Já algumas tribos da nossa cultura ocidental dizem que podemos transformar o mundo e criar satélites e desenvolvimento. Não sabemos ao certo qual visão é a melhor, mas precisamos reconhecer que não podemos substituir totalmente a natureza pela tecnologia humana. A ideia de viver fora da Terra em um planeta totalmente controlado por tecnologia – como a “Estrela da Morte” – é um pesadelo e causa medo em muitas pessoas. O que defendo com a transecologia é refletir sobre o papel da tecnologia para a manutenção da vida orgânica, chamando a atenção para o que seria uma “ciberecologia”.
O conceito de transecologia abrange tecnologias de modificação corporal. Como você vê a convergência entre tecnociência, corpos trans e equilíbrio ecológico? O melhor exemplo para falarmos disso são as próteses. Nós as projetamos para melhorar as nossas capacidades, aumentar o bem-estar e controlar o sofrimento. Contudo, a tecnologia também pode atuar como uma prótese destrutiva – os telefones celulares, por exemplo, estão se tornando próteses cada vez mais presentes, com as quais podemos causar muitos danos. Devemos pensar nas próteses em termos ecológicos que tipos de dispositivos devemos desenvolver para melhorar o bem-estar da natureza ou para corrigir os danos que causamos a ela?. Existem muitas “soluções baseadas na natureza” e tecnologias positivas para preservar, restaurar ecossistemas e resgatar a vida que foi perdida. Promover esse uso positivo da robótica e das próteses a favor da natureza é o que tento impulsionar na academia.
Diante da atual crise climática, o que você acha de abraçarmos uma diversidade radical – de identidades, corpos e ideias – como solução prática para a nossa sobrevivência? O futuro é assustador e sabemos que a crise climática afetará nossa capacidade de viver neste planeta, atuando como uma força seletiva tremenda na evolução. No entanto, a adaptação nos ensina que podemos prosperar se aceitarmos as mudanças imprevistas. A incerteza é algo excelente para a inovação, pois nos obriga a pensar fora da caixa. Se você acha que já sabe como será o futuro, acaba preso aos mesmos caminhos e não chega a soluções realmente inovadoras. Precisamos dizer aos jovens para não se preocuparem vocês experimentarão um nível de liberdade inédito na história humana, mas que trará o imenso desafio de se redesenharem para viver em um mundo muito diferente do anterior. Trata-se de um equilíbrio entre o medo e a emoção dessa nova liberdade.
Para encerrar, você sente que a academia está mais aberta a esses novos conceitos e a cientistas trans hoje em dia, ou ainda temos muito a trabalhar? A academia ainda está um pouco presa no que eu chamaria de “má ciência” – existe um medo muito grande de desafiar o conhecimento que já é comumente aceito. Ela se tornou um ambiente muito conservador e construiu suas próprias redes de segurança para os cientistas. Mesmo assim, há um forte apelo para que voltemos à “boa ciência” aquela que mantém o pensamento crítico, promove experimentos éticos e fomenta um debate permanente sobre o que está acontecendo com a cultura e a natureza. Já vejo muitos experimentos acadêmicos propondo mudanças na educação e nas formas de construir o conhecimento. Precisamos abalar as bases da construção desse conhecimento, da mesma forma que os ambientalistas e os movimentos sociais têm feito.
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