Португальский Правосудие
08.09.2026 Читать источник
В США сообщество ядерных убежищ Vivos xPoint охвачено судебными тяжбами и вооруженными конфликтами

Проект по созданию крупнейшего в мире комплекса убежищ от ядерной войны столкнулся с рядом внутренних конфликтов, включая стрельбу между жителями и коллективный иск на 17 миллионов долларов. Судебные разбирательства, которые могут привести к потере контроля над объектом со стороны управляющей компании, угрожают существованию всего сообщества.
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Construído para sobreviver ao apocalipse, mas destruído por uma guerra entre vizinhos: o 'filme' do maior complexo de bunkers dos EUA
Na Dakota do Sul, nos Estados Unidos, existe uma comunidade construída para resistir ao fim do mundo que enfrenta, antes de qualquer apocalipse nuclear, uma batalha bem mais terrena: conflitos entre moradores, armas, ameaças, despejos e processos judiciais. O Vivos xPoint, apresentado pelos seus promotores como “a maior comunidade de sobrevivência da Terra”, foi concebido para acolher mais de 5.000 pessoas em caso de guerra nuclear, uma nova pandemia ou de um eventual colapso da civilização. No entanto, quase uma década depois do início da transformação do antigo complexo militar, o projeto está envolvido numa sucessão de disputas que ameaça a própria empresa responsável pela sua gestão.
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O mais grave dos episódios envolveu uma discussão relacionada com uma fossa séptica e terminou com um morador a disparar no peito de um trabalhador que também vivia no complexo. O caso chegou ao Supremo Tribunal do Estado do Dakota do Sul, que considerou que o residente tinha atuado em legítima defesa. Mas esse está longe de ser o único conflito. Há ainda acusações de despejos injustificados, ameaças, cães soltos, armas, divergências sobre serviços e dinheiro e uma ação judicial coletiva que poderá atingir cerca de 17 milhões de dólares e envolver até 150 arrendatários.
Uma cidade subterrânea preparada para o fim do mundo
O Vivos xPoint ocupa uma antiga base militar com quase 47 quilómetros quadrados e cerca de 160 quilómetros de estradas privadas. Vista do ar, a propriedade parece ser formada por uma série de pequenas colinas artificiais. Sob cada uma delas encontra-se um dos 575 antigos depósitos de munições construídos pelo Exército norte-americano em 1942.
Os antigos armazéns militares estão cobertos de terra e, atrás das respetivas portas de aço, escondem espaços com cerca de 200 metros quadrados, protegidos por paredes de betão. As estruturas foram originalmente concebidas para guardar bombas, mas a base militar encerrou 25 anos depois da sua construção e permaneceu abandonada durante décadas.
A transformação começou em 2016, quando o empresário californiano Robert Vicino decidiu converter o antigo complexo numa comunidade privada de sobrevivência. A própria designação xPoint traduz a filosofia do projeto: trata-se do ponto em que, perante uma catástrofe de grandes dimensões, apenas quem estiver preparado conseguirá sobreviver.
Vicino afirma que a origem da ideia remonta a 1982, quando, segundo o próprio, uma voz que atribui ao Espírito Santo lhe ordenou que construísse estes refúgios.
Bunkers de 200 metros quadrados vendidos como casas de emergência
Apesar da origem militar, a imagem promovida pela empresa está longe da de um abrigo convencional. O bunker-modelo apresentado pela Vivos é apresentado como uma espécie de habitação de luxo subterrânea, com vários quartos, cozinha, sala, casas de banho e lavandaria. Os sistemas de filtragem fazem parte da infraestrutura e existe até a possibilidade de instalar um jacuzzi.
Para garantir um destes espaços, o cliente paga inicialmente entre 25 mil e 55 mil dólares. Esse montante, contudo, não corresponde à compra da casa nem do terreno. O modelo assenta num contrato de arrendamento com duração de 99 anos, através do qual o residente recebe uma estrutura vazia que terá de transformar e equipar à sua custa.
A ligação à água, a renda do terreno e uma mensalidade são cobradas separadamente. O projeto previa ainda uma série de equipamentos e serviços destinados a transformar o antigo complexo militar numa verdadeira comunidade autónoma, incluindo restaurantes, lojas, cinema, clínica, piscina, ginásio e estábulos.
Uma década depois do início da transformação, muitas dessas estruturas continuam, contudo, assinaladas como “em breve”. A Vivos sustenta que essas instalações nunca foram garantidas e atribui os atrasos à dificuldade em encontrar trabalhadores.
Cerca de um terço dos bunkers já foi arrendado, mas apenas algumas dezenas de pessoas vivem permanentemente no complexo.
Uma discussão por uma fossa séptica acabou num tiroteio
David Streeter era um desses moradores. Veterano do Exército norte-americano, antigo agente da polícia e técnico de emergência médica, mudou-se para o Vivos xPoint com a família em julho de 2023. Pagou 55 mil dólares pelo contrato e passou meses a transformar o espaço de betão numa habitação.
Os problemas começaram por causa de uma fossa séptica. Streeter afirma que, depois de apresentar reclamações, trabalhadores da Vivos começaram a filmá-lo, a fazer-lhe gestos obscenos e a conduzir a grande velocidade junto do seu bunker.
A tensão atingiu um ponto crítico em agosto de 2024. Depois de um funcionário ter passado rapidamente junto da sua casa, Streeter seguiu-o, abriu a porta do veículo e empurrou-o contra o banco.
Kelly Anderson, outro trabalhador do complexo, soube do episódio e decidiu, segundo o relato apresentado no processo, “dar-lhe uma lição”. Anderson dirigiu-se pouco depois ao local e começou a ameaçar Streeter.
O residente sacou então de uma pistola e pediu ao trabalhador que se afastasse. Anderson recusou e o confronto continuou dos dois lados da vedação que separava as propriedades. Quando os dois homens estavam a cerca de 30 centímetros um do outro, Streeter disparou e atingiu Anderson no peito.
Apesar do disparo, o próprio residente prestou assistência ao trabalhador até à chegada da ambulância.
Supremo Tribunal considerou que houve legítima defesa
O confronto deu origem a processos judiciais de ambos os lados. Em março deste ano, o Supremo Tribunal do Dakota do Sul concluiu que Streeter tinha agido em legítima defesa, aplicando a chamada doutrina “stand your ground”.
Este princípio permite, em determinadas circunstâncias, que uma pessoa recorra à força perante uma ameaça iminente sem ter a obrigação de fugir antes de o fazer.
A decisão judicial não encerrou, contudo, o conflito entre Streeter e a Vivos. A empresa procura agora conseguir o despejo definitivo do residente, que deixou o complexo há vários meses, mas se recusa a retirar os seus bens e a abandonar o bunker.
Streeter argumenta que investiu aproximadamente 300 mil dólares entre o valor pago pelo arrendamento e as obras realizadas para transformar o abrigo numa casa.
O conflito sobre as regras dos contratos de 99 anos
Outro processo que chegou ao Supremo Tribunal do Dakota do Sul colocou uma questão diferente: que direitos têm os residentes que pagaram dezenas de milhares de dólares por um bunker que, juridicamente, não lhes pertence?
Daniel Sindorf assinou em 2020 um contrato de arrendamento por 99 anos e pagou antecipadamente 35 mil dólares. Em julho de 2023, envolveu-se também num confronto com um trabalhador da Vivos e a companheira deste, durante o qual exibiu uma pistola.
Sindorf sustenta que apontou a arma para o chão porque estava a tentar proteger-se de três cães que o rodeavam. O trabalhador envolvido no confronto apresentou uma versão diferente e afirmou que Sindorf apontou a arma à mulher.
A Vivos tentou despejá-lo em 2024, invocando uma regra que proibia a exibição de armas dentro do complexo. Sindorf contestou a decisão com um argumento relacionado com o próprio contrato: a proibição tinha sido introduzida depois de ter assinado o arrendamento.
O residente alegou que o contrato não poderia ser considerado válido se a empresa tivesse liberdade para alterar unilateralmente as regras que se aplicavam aos moradores. Um juiz deu inicialmente razão a Sindorf.
Supremo dá razão à Vivos, mas impõe limites à empresa
A decisão acabaria por ser revertida pelo Supremo Tribunal do Dakota do Sul. Num acórdão de 22 de abril, o tribunal concluiu que a Vivos tem efetivamente capacidade para alterar as regras aplicáveis ao complexo.
Essa competência não é, contudo, ilimitada. De acordo com a decisão, as alterações devem ser feitas de forma razoável, de boa-fé e de maneira uniforme para os residentes.
O acórdão representou uma vitória para a Vivos no conflito com Sindorf, mas não resolveu a disputa financeira muito mais ampla que ameaça a empresa.
Ação de 17 milhões de dólares pode envolver até 150 moradores
Seis arrendatários apresentaram há cerca de um ano uma ação judicial que poderá ascender a aproximadamente 17 milhões de dólares. Os autores procuram que o processo seja reconhecido como uma ação coletiva, o que permitiria que o caso abrangesse até 150 arrendatários.
Os moradores acusam a Vivos de não prestar serviços básicos prometidos, de anunciar instalações que nunca chegaram a ser construídas e de ficar com o dinheiro e com as melhorias realizadas por residentes que acabam por ser despejados.
Entre as compensações reclamadas estão os pagamentos iniciais realizados pelos arrendatários, o dinheiro gasto nas obras de adaptação dos bunkers e as mensalidades pagas à empresa.
A promotora rejeita as acusações de fraude. Robert Vicino afirma que devolveu o dinheiro a quem o solicitou e atribui parte das críticas a um grupo reduzido de residentes que considera “maçãs podres”.
Apesar da posição da empresa, a Vivos acumula pelo menos 16 ações judiciais e cinco queixas apresentadas junto da Procuradoria-Geral do Estado.
Moradores podem acabar com o controlo dos bunkers
A próxima decisão judicial poderá ter consequências muito mais abrangentes do que os conflitos individuais entre residentes e a promotora. O tribunal ainda terá de decidir se a ação dos seis arrendatários pode avançar como processo coletivo.
Se isso acontecer e os residentes acabarem por vencer a ação, existe um cenário ainda mais radical em cima da mesa: caso a Vivos não tenha capacidade financeira para pagar a indemnização, os autores defendem que os próprios bunkers e o terreno possam passar para as mãos dos arrendatários.
Nesse cenário, a disputa deixaria de estar limitada à recuperação dos valores pagos pelos moradores. Estaria em causa o próprio controlo da propriedade, a gestão dos bunkers e a continuidade da empresa responsável pelo projeto.
O Vivos xPoint foi concebido para garantir a sobrevivência dos seus residentes perante uma guerra nuclear, uma pandemia ou o colapso da sociedade. Agora, porém, o maior complexo privado de bunkers antinucleares dos Estados Unidos enfrenta uma ameaça muito mais imediata: uma batalha judicial e entre vizinhos que poderá determinar o futuro de toda a comunidade.
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