Португальский Культура
03.09.2026 Читать источник
Исторический альбом: Ensemble Arte Minima записал полное собрание мотетов Викенте Лузитано

Немецкий лейбл Note One выпустил двойной альбом с 16-ю пятиголосными мотетами Викенте Лузитано, что впервые за почти пять веков позволяет прослушать его «Первую книгу мотетов» в полном объеме. Этот релиз, подготовленный ансамблем Arte Minima под руководством Педро Соуза Силвы, раскрывает уникальные стилистические особенности творчества португальского композитора XVI века.
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A primeira gravação integral do Liber Primus Epigramatum, de Vicente Lusitano, completa-se na sexta-feira com a edição do duplo álbum dos 16 motetos a cinco vozes do compositor português do século XVI, pelo ensemble Arte Minima.
Com selo da discográfica alemã Note One, que destaca a edição no seu site, o novo álbum reúne a maior parte da obra de Vicente Lusitano, aquela em que o domínio dos diferentes idiomas da polifonia quinhentista “encontra a sua expressão mais plena”, como defende o professor, musicólogo e regente Pedro Sousa Silva, fundador e diretor do agrupamento de música antiga.
A gravação dos 16 motetos a cinco vozes sucede ao anterior álbum da Arte Minima com os motetos a seis e oito vozes, editado no ano passado pela Pan Classics – obtendo as mais altas avaliações de revistas especializadas como a Diapason, a plataforma MusicWeb Internacional e a rádio France Musique – e possibilita, pela primeira vez, ao fim de quase cinco séculos, a audição integral do Liber Primus Epigramatum (“Primeiro livro de motetos”, em tradução livre), publicado em Roma em 1551.
Vicente Lusitano nasceu em Olivença, por volta de 1520-1522, quando a cidade se encontrava sob administração portuguesa. Com ascendência africana, a investigação sobre a sua vida e obra identifica-o como o primeiro compositor negro, na história da música, com obra publicada, e também como primeiro compositor português com obra impressa no estrangeiro.
“Vicente Lusitano é, sem dúvida, o mais importante compositor português do seu tempo e, possivelmente, de todos os tempos”, afirma Pedro Sousa Silva no ensaio que acompanha a edição do novo álbum, lembrando que “muito sobre a sua vida permanece envolto em mistério”.
A atenção dedicada a Vicente Lusitano é recente e ganhou dimensão internacional no início da década, com artigos no jornal britânico The Guardian e especiais na BBC, na sequência da interpretação de alguns dos seus motetos pelo coro Chineke! Voices e o Marion Consort do Reino Unido.
De repente, ficou também exposta uma investigação de fundo sobre o compositor, que já soma cerca de 60 anos, alicerçada no trabalho do norte-americano Robert Stevenson, da Universidade da Califórnia, e em particular na exaustiva pesquisa de Maria Augusta Alves Barbosa, pioneira da musicologia em Portugal, impulsionadora do curso de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa e do mestrado da Universidade de Coimbra, que levou a obra de Vicente Lusitano à Universidade de Colónia, na Alemanha, com a sua tese de doutoramento (1977).
Até agora, o nome de Vicente Lusitano não seria estranho ao século XVI português nem seria impossível associá-lo aos meios musicais de Roma, nos anos de 1550. João de Freitas Branco enquadrou-o entre “Os Teóricos”, na sua “História da Música Portuguesa”, enquanto Tomás Borba e Fernando Lopes-Graça enumeram o essencial dos seus motetos, no “Dicionário de Música”, definindo-o como “compositor e teórico”.
Quase toda a obra de Lusitano, porém, manteve-se inédita e raramente foi ouvida nos últimos cinco séculos.
A integral do “Liber Primus”, que a Arte Minima agora conclui, ganha assim uma importância histórica já reconhecida pela imprensa especializada quando da edição do primeiro volume do projeto, elogiando “a interpretação admirável” e “o conjunto excecional”, como aconteceu com a Diapason e a MusicWeb.
A publicação do “Liber Primus Epigramatum”, em 1551, coincide com a chegada de Vicente Lusitano a Roma, como parte da comitiva do novo embaixador português junto do Papa.
Os 16 motetos a cinco vozes, segundo Pedro Sousa Silva, “constituem não só a maior parte do livro impresso”, cerca de dois terços do seu total, como também demonstram o domínio dos diferentes estilos da polifonia europeia do século XVI.
Pedro Sousa Silva destaca a tradição ibérica patente em “Clamabat autem”, os recursos retóricos de “Benedictum”, a densidade de “Emendemus in melius” e “Aspice domine”, obras em que “as vozes se movem em entrelaçamentos sucessivos”, e “as texturas semelhantes a ladainhas, com frases curtas, repetições motívicas e trocas antifonais entre grupos de vozes” de “Regina caeli”, sem esquecer “Quid montes”, a única composição sobre um texto laico em todo o “Liber Primus”.
Vicente Lusitano fixou-se em Roma em 1551, onde não só pôde publicar obra como superou a polémica com o compositor italiano Nicola Vicentino, sobre modelos de composição, obtendo o apoio dos cantores da capela papal.
Também em Roma, e na sequência deste confronto, publicou um tratado de cantochão e polifonia (“Introdução muito fácil e nova ao Canto Fermo, Figurato, Contraponto e Concerto”), em 1553, depois reimpresso em Veneza e Lisboa. Da sua obra teórica conhecida, há ainda o “Tratado de Canto de Organo”, que a musicologia considera um dos mais importantes sobre a improvisação polifónica do Renascimento, preservado na Biblioteca Nacional de França.
Da vida de Lusitano sabe-se ainda que assumiu posições de destaque, no ensino e na composição, em Pádua, Viterbo e Roma. Conhece-se igualmente a conversão ao protestantismo e o casamento posterior, atribuindo-se-lhe o afastamento da Europa católica do sul, mais afeta às imposições do Concílio de Trento.
A derradeira informação de Lusitano situa-o em Estugarda, onde respondeu a encomendas da Corte de Württemberg. A partir daí, e da publicação em Veneza do madrigal All’hor ch’ignuda, em 1562, perde-se o rasto e sobra o enigma.
Maria Augusta Barbosa, numa pesquisa sobre múltiplas fontes, admitiu a possibilidade de Vicente Lusitano ter optado pela mudança de nome e iniciado novo percurso, nos últimos anos de vida.
O ensemble Arte Minima, fundado por Pedro Sousa Silva em 2011, é um projeto dedicado à interpretação de música antiga, em particular a música portuguesa dos séculos XV a XVII, com base numa investigação apurada e longa, a partir das fontes originais.
A sua discografia inclui, entre outros álbuns, In Splendoribus (2021), dedicado a composições inéditas das Sés de Braga e do Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, e Missa O Beata Maria (2023), de Francisco de Santa Maria (Pan Classics).
O ensaio que acompanha a edição do Liber Primus propõe ainda uma nova leitura da sua dedicatória, a partir de uma investigação do musicólogo Manuel Pedro Ferreira.
“Vicente Lusitano merece, sem dúvida, muito mais atenção do que tem recebido”, escreve Pedro Sousa Silva no termo desse ensaio, enumerando as únicas três peças “não menos notáveis” do compositor que a Arte Minima ainda não gravou: o madrigal Allor che ignuda e os motetos Heu me domine e Beati omnes, que também deixam perceber sinais de uma vida, “em grande parte, envolta em mistério”.
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