Португальский Медицина
01.09.2026 Читать источник
Растущая разница между температурой тела человека и окружающей средой повышает риски грибковых инфекций

Специалисты предупреждают, что постепенное снижение температуры человеческого тела на фоне глобального потепления сужает защитный барьер против патогенных грибов. Эксперты напоминают, что несвоевременное лечение ран, полученных от укусов животных, может привести к серьезным последствиям из-за адаптации микроорганизмов к более высоким температурам.
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O fungo e o gato
Nós, mamíferos, carregamos por dentro uma fogueirinha acesa: a temperatura do corpo. A imensa maioria dos fungos do mundo não suporta viver a 37 graus
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Meu amigo Flavio Telles, infecto de Curitiba (PR), que entende de fungos como poucos neste planeta, me desafiou a fazer uma crônica sobre um grave problema de saúde pública, que passa batido pela percepção da população. Super especialista pedindo crônica a infectologista é como maestro pedindo modinha a violeiro — a gente aceita por amizade e depois passa a semana com medo de desafinar. Vou contando devagar, como quem conta um caso na varanda, que é como as coisas graves devem ser contadas em Minas.
Há uma doença que durante um século teve nome de poesia: a doença do jardineiro de rosas. Foi descrita em 1898 por um estudante de medicina chamado Benjamin Schenck, que acabou emprestando o nome ao bolor — o Sporothrix. O enredo era quase bucólico: o espinho fura o dedo, o fungo entra, e semanas depois nasce um carocinho que não sara, seguido de outros, subindo pelo braço em rosário, como se a infecção rezasse pelos vasos linfáticos. Doença de quem lidava com terra, palha, musgo e madeira. Coisa mansa, de quintal. Infectologista de ofício e cronista por teimosia, vejo cada vez mais esses rosários no ambulatório; e sempre me comove o fato de uma doença ter ao mesmo tempo nome de flor e vocação de espinho.
Aí o Brasil, que não faz nada pela metade, inventou sua versão. Lá pelo fim dos anos 1990, no Rio de Janeiro, o Sporothrix brasiliensis descobriu um atalho: em vez de esperar num espinho a paciência das rosas, mudou-se para o gato. E quem resiste a um gato? Ele ronrona, pisca devagar, dorme sobre o jornal que às terças alberga essa crônica. Nas feridas do bichano doente, o fungo se aglomera aos milhões; basta uma unhada, um espirro, uma lambida em pele ferida e a micose pula de espécie com a naturalidade de quem pula um muro baixo.
Hoje, temos a maior epidemia de esporotricose zoonótica do mundo e que virou commodity para o resto do planeta: casos em todos os estados, milhares de gatos doentes, mais de mil casos humanos por ano — e só em 2025 a doença virou notificação compulsória, que é o jeito burocrático de confessar que antes preferíamos não contar. Digo logo, em defesa dos bichanos: o gato não é vilão, é vítima. Quem espalha a epidemia é o abandono, a falta de tratamento, a carcaça jogada no terreno baldio. O fungo agradece nossa negligência e falta de sensibilidade.
E o resto da casa? O cachorro também adoece, quase sempre por brigar com gato doente, mas é figurante: raramente fica doente, suas feridas carregam pouquíssimo fungo, e pegar esporotricose de cão é raridade de relato de caso. Entre humanos, sosseguem os hipocondríacos: não há evidência de contágio de pessoa a pessoa — ninguém pega em aperto de mão, abraço ou beijo mal calculado. O fungo é exigente quanto à porta: prefere espinho ou unha. Por isso, a receita não é isolar o bicho, muito menos o vizinho: é tratar o gato, que tratado deixa de transmitir.
Mas o que me tira o sono é outra coisa, e é aqui que o desafio do Flavio fica ainda mais sério. Nós, mamíferos, carregamos por dentro uma fogueirinha acesa: a temperatura do corpo. A imensa maioria dos fungos do mundo não suporta viver a 37 graus. Nosso calor é uma muralha invisível, que carregamos sem agradecer, como se carrega o coração. Um cientista, Arturo Casadevall, fez a conta do custo-benefício entre se proteger de fungo e não morrer de fome: deu 36,7 graus, quase exatamente o que somos. Não somos quentes por acaso; somos quentes por estratégia da seleção natural ou sabedoria divina, como queiram.
E há nisso uma ironia que os dinossauros não viveram para contar. Quando o asteroide caiu, há 66 milhões de anos, o céu escureceu, as florestas tombaram, e a Terra virou uma compostagem do tamanho do mundo. O registro fóssil guarda um pico de esporos: foi a maior festa fúngica da história. Os répteis, frios, sem sol para se aquecer, atravessaram essa nuvem de mofo como quem atravessa um brejo descalço. Nós — pequenos, peludos, febris — passamos pelo filtro. Devemos o reinado menos à esperteza que a nossa temperatura que era 37 graus. Pois releiam a frase e reparem no verbo: era.
Mas, na verdade, a temperatura humana vem caindo há dois séculos, uns 0,03 graus por década; o homem de hoje é mais de meio grau mais frio que o bisavô. Esfriamos por bons motivos — menos infecções, menos inflamação —, e o clássico 37 virou 36,6 sem direito a velório. Enquanto isso, do lado de fora, esquentamos o planeta, e cada onda de calor vai ensinando os fungos a suportar febre. O vão entre a temperatura do mundo e a do nosso corpo estreita pelos dois lados.
O Candida auris, surgido quase ao mesmo tempo em três continentes, cresce feliz a 42 graus; o nosso brasiliensis prospera tanto nos 36 da gente quanto nos 39 do gato. O Flavio, o Colombo, o Nucci, o Pasqualotto, meus queridos amigos “fungólogos”, falam em tempestade perfeita: planeta mais quente, corpos mais frios, mais gente com a imunidade em baixa. Teremos o destino dos dinossauros? Acho que não — eles não tinham itraconazol, nem o SUS, nem vigilância epidemiológica. Mas não convém debochar de quem virou peça de museu. Parte importante, que valoriza nosso sistema de saúde.
O aviso, esse cabe em três linhas: ferida que não sara, sobretudo depois de arranhão de gato, é caso de médico — o tratamento é longo, mas cura. Gato com feridinha no focinho é caso de veterinário, não de abandono, porque abandono não é só crueldade: é política de expansão fúngica. E o clima, no atacado, merece a seriedade dos postulantes ao Planalto nas eleições de outubro. Candidato que nega a ciência, coloca o planeta e nosso futuro em risco – se é que ainda podemos falar em futuro.
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Escrevo isso ao cair da tarde, que nas montanhas de Minas esfria depressa, e me ocorre que o mundo anda com as temperaturas trocadas: esquenta onde devia ser fresco, esfria onde devia arder. A natureza tem lá seu humor. Fez-nos reis pela temperatura e pode nos destronar pelo termostato. Entre nós e o mofo que herdou a Terra dos dinossauros existem hoje, com otimismo, 36,6 graus de separação. Eram 37. Não sei quantos serão amanhã. Sei que o fungo, paciente como todo esporo, espera — de preferência no colo de um gato, que ronrona, pisca devagar, e nos alerta: pra quem não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
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